Dan Caragea: Dados, Informação e Conhecimento

A capacidade actual de se ter acesso com tanta facilidade a gigantescas bases de dados pode criar a sensação de que a memória pessoal é, de algum modo, inútil. Memorizar para quê? Porque é que as pessoas devem continuar a meter dados na cabeça? Não fornecem as Novas Tecnologias soluções para milhares e milhares de dados que guardamos aparentemente sem nenhuma utilidade prática? Porque é que uma criança começa desde muito cedo a aprender rudimentos de História ou Geografia? Porque é que um jovem precisa de saber a cronologia dos reis de Portugal? Porque é que um cidadão não deve ignorar o que se passou no 25 de Abril de 1974? Infelizmente, devo afirmar que as respostas a este tipo de perguntas não são tão óbvias como desejava.

A chamada «cultura geral» parece hoje um conceito obsoleto e socialmente desnecessário. Às vezes, e de forma sempre mal conduzida, alguns concursos televisivos ainda apostam nela. Como espectáculo, claro. Estes programas mostram carnavalescamente que ninguém tem hoje vergonha de não saber determinadas respostas, consideradas outrora básicas, porque a sociedade deixou de indicar às pessoas, num sentido pedagógico concreto, o que é realmente obrigatório que elas saibam. Se alguém, nestes concursos de invejável audiência, não souber que Salazar foi ministro das Finanças antes de ser presidente do Conselho não é considerado crime, porque ninguém definiu, de forma absoluta e imperativa, o que é que o português escolarizado deve saber. Não me passa pela cabeça sugerir que se promulgue um tal «prontuário de cultura mínima». No entanto, confesso que não conseguia evitar uma certa sensação de embaraço se isto me acontecesse em público ou se a pessoa em causa fosse o meu filho.

O não saber foi e continua a ser um acto vergonhoso que põe em causa a auto-imagem, mas a ignorância cultural já não provoca dramas nem despromoções. O professor Cavaco Silva não foi rebaixado a assistente por não se ter lembrado quantos cantos tem Os Lusíadas. Nem houve comentários acerca da possível discalculia do Eng.º Guterres. Temos que concordar que há tempos, como o nosso, em que o discurso sobre o pudor, pelo menos para os mais novos, mudou radicalmente ou se tornou bastante diluído. Vejam o tema da nudez, por exemplo. Ou, para ser mais circunscrito, a nudez espiritual como despudor ingénuo e perfeitamente aceite.

Retomando a ideia da função da memória, diria apenas que a nossa memória não é um mero armazém de antiguidades, como acontece numa base de dados, mas sim um recurso imprescindível na compreensão e valorização da informação e do conhecimento. Não existe informação sem conhecimento, dizem os entendidos, e é profundamente verdade. Sem conhecimento a informação não tem significado, é um balbuciar oco. Por isso, a memória biológica é insubstituível para nos orientarmos em situações da vida, e ainda para manejarmos, estruturarmos e valorizarmos outras memórias, e ninguém poderá pensar a sério em dispensá-la. Mas não é menos verdade que as memórias externas, tecnológicas são hoje um auxiliar inestimável.

Todo o discurso actual das Novas Tecnologias sobre as memórias externas (criação, administração e acesso) assenta em três conceitos básicos: dados, informação e conhecimento. É sobre esta tríade gnosiológica que nos vamos debruçar nas páginas que se seguem.

Os dados são unidades informativas minimais que traduzem, graças a certos sistemas de grandezas, conhecidos e aceites, aspectos permanentes ou momentâneos das realidades que interessam num determinado discurso sobre o mundo. Por exemplo: o montante que a minha mulher gastou este mês, a temperatura em Lisboa prevista para amanhã, o nome do autor do Memorial do Convento, o dia em que começou a segunda guerra mundial, a hora da chegada de um voo da TAP, os nomes atribuídos numa repartição de finanças a cada formulário, os títulos dos discos gravados por Chico Buarque, a altura da serra da Estrela, os países membros da União Europeia, a lista dos hotéis de três estrelas de Madrid, etc. Todo isto são dados quer expressos por palavras quer por números, abreviaturas ou símbolos. A natureza dos dados é mista: alfanumérica e, diria, codificada. Os dados encontram-se em textos descritivos, tabelas, impressos, cartazes, letreiros, na rádio, televisão, no escritório, nos jornais, nos restaurantes, etc. O mundo em que vivemos é um contínuo produtor de dados, alguns memoráveis outros efémeros. Qualquer que seja o domínio do conhecimento, os dados podem ser armazenados em bases de dados, que são contentores eficazes e de rápida consulta. Há bases em suportes convencionais (em papel, por exemplo) e há bases electrónicas de dados. Os dados representam o conteúdo, enquanto as bases em si são o continente, a sua forma de armazenamento. Podem ser consultados de forma independentemente ou relacionados, segundo o modelo estrutural escolhido. Chamemos gestão de dados à implementação de bases de dados do ponto de vista da sua administração, consulta, seguranças, etc.

A informação é uma rede complexa de dados, a sintaxe que exprime as relações manifestas, referindo, de forma objectiva ou subjectiva, factologias permanentes ou momentâneas. A informação pode ser reduzida a dados, tal como uma notícia ou uma fotografia aparecem classificados, mas é muito mais de que um simples conjunto ou sequência de dados. A informação aceita e fomenta tomadas de atitude, intencionalidades, horizontes de referências, linguagens alusivas, deturpações, tendencionalismos, omissões, significados ocultos ou subentendidos, etc. E uma verdade mentirosa ou uma mentira verdadeira. A informação é o que a grande maioria das pessoas busca freneticamente, mas a sua retenção é de curta duração na memória individual ou colectiva. Para muitos, a informação é a ilusão senão o oposto do conhecimento: um discurso feito de lugares comuns, chavões, a clamada reificação do pensamento e da inteligência. É uma espécie de película fútil mas necessária, responsável pela sensação de que vivemos num mundo em constante mudança. É informação tudo a que chamamos «notícias», tudo que um guia nos conta num passeio turístico, as entradas dos dicionários de toda a espécie, as receitas culinárias, a literatura que acompanha um medicamento, o texto de um decreto-lei, os regulamentos dos concursos públicos, os currículos dos candidatos a um determinado emprego, uma acta, o relatório de um assalto à mão armada, a biografia da Madonna, os conselhos de um psicólogo sobre como devemos vencer a timidez, os horóscopos, os grandes acontecimentos do século XX, os informes sobre a poluição das praias, os programas televisivos de José Hermano Saraiva, os programas escolares, etc. Chamamos gestão da informação à implementação de sistemas que permitam o acesso à informação seja por intermédio de fichas de consulta seja, mais recentemente, pela pesquisa em texto integral. O software disponível para consultas páginas contêm determinadas palavras ou combinatórias, em quantos textos se afirma que «o mundo é mau», etc.

Com habilidades mínimas mas imprescindíveis, podemos detectar textos que falam de determinados assuntos: textos que falam de José Saramago, textos que referem que Saramago recebeu o Nobel da Literatura, textos em que se fala tanto de Saramago como de Fernando Pessoa, textos que citam as traduções dos seus romances, textos que aludem o caso Sousa Lara, textos em que Saramago se pronuncia sobre os direitos humanos na Cuba do Fidel, e assim por diante. Em todas estas pesquisas, perfeitamente possíveis, os motores de busca detectam os elementos do nosso pedido de informação devolvendo-nos em segundos todo que encontram na Web, no sítio do Expresso ou do Instituto Camões, num arquivo que tenha digitalizado os seus documentos, nos cafés virtuais, etc. Muita gente afirma que na sociedade actual se safa quem tem acesso à informação. Sem dúvida que assim é, e tem sido assim ao longo de toda a História. Todos nós sabemos que a informação nasce da informação e que, raramente, uma informação pode ser considerada genuína. O que interessa é tê-la «em primeira-mão», isto é, ser o primeiro mas não necessariamente o mais informado. A informação dá ou faz perder dinheiro, mexe com sensibilidades e idiossincrasias, satisfaz ou irrita, é poder ou é inútil, produz correntes de opinião, deixa-nos inflamados ou indiferentes, une e divide pessoas, é veiculada em grande escala ou não passa de alguns ouvidos, cria imagens de «gente», compõe «caras», destrói pessoas, lança mitos e modas, cativa pobres e ricos, rascas e cosmopolitas, é, para todos, o sustentáculo e o rosto escrito na comunidade. Deus deu informações a Moisés, Judas foi bufo. Sociedades antigas e modernas criaram polícias da informação, lançam companhias, torturaram e até mataram para sacar ou abafar a informação. Em certa mediada, a História não é outra coisa de que um enorme repositório de informação e desinformação.

De momento notemos que a pesquisa e a recuperação da informação é teoricamente possível quando conseguimos evitar devoluções excessivas. O facto de existir duzentos mil textos que contêm palavras da nossa pesquisa nos coloca perante uma impossibilidade. Apesar de contar às vezes como um elevado número de ocorrências, um motor de pesquisa como Google não devolve mais de duzentos textos. É lícito perguntar: será que os textos conseguidos são os mais representativos? É absolutamente seguro que não. Então, se não tivermos sorte em encontrar o que esperávamos, como podemos solucionar esta situação algo dramática? Alguém imaginou quantas vezes deve surgir o nome Lisboa em todas as edições do Diário de Notícias? Contudo, a personagem em que estou a pensar deseja um artigo sobre Lisboa.
― Mas sobre o quê, se não é indiscrição?
― Bom, um artigo sobre a história de Lisboa, retorquiu.
― Alguma época em particular?
― Não, eu preciso de um artigo não muito longo que relate a história da cidade, dos fenícios até hoje, para um folheto que estamos a preparar.

Se esta personagem tiver a ingenuidade de escrever: «artigos sobre a história de Lisboa», lançando a pesquisa sobre toda a colecção do jornal, ficará sem dúvida horrorizado. Não vale a pena matarmos a cabeça com variantes; mesmo suprimindo «artigos sobre a», obviamente desnecessárias, pouco adiantamos. Deixemos que a imaginação de cada um solucione à sua maneira este pequeno exercício de fantasia. Para nós, neste caso específico, em condições normais de pesquisa com motores habituais de busca, não existe solução satisfatória, a não ser que a nossa personagem seja de facto um investigador culto, com anos de queimar pestanas sobre o referido jornal, e familiarizado com o uso de operadores para poder tirar algum proveito. Infelizmente este é o destino dos poucos chamados. Mas atenção: não tentem experimentar, porque o Diário de Notícias, instituição patrimonial, não tem as suas edições digitalizadas e disponíveis na Web.

O conhecimento é para nós a informação complexa e convenientemente articulada presente nos discursos superiores sobre noções e categorias do mundo das ciências e tecnologias, religião, filosofia, etc. Todos os discursos têm método, técnicas de funcionamento, retóricas implícitas, vocabulários particulares e referências cruzadas. São diálogos intertextuais de grande elaboração, às vezes herméticos para profanos. Não podem ser abordados directamente, necessitam de um longa didáctica ministrada em instituições superiores de ensino. Cada domínio conta com autoridades, livros de cabeceira, leituras obrigatórias, dicionários especializados e muitos anos de formação e treino. Na zona nuclear situam-se as teorias, as suas críticas e refutações. Nas zonas periféricas encontramos discursos mais permeáveis, chamados literatura de divulgação científica. O modelo que reina nesta mundo do saber ilusório é a enciclopédia, a grande utopia do conhecimento. No mundo ocidental a maioria das pessoas compra enciclopédias, agora já em CD-ROM, porque os humanos continuam, à moda do século XVIII, a sonhar com o saber universal. As enciclopédias são simulacros portáteis da biblioteca essencial. Sempre que falo desta gigantesca instituição do poder, recordo inevitavelmente a biblioteca do Jacinto, de A Cidade e as Serras, expressão da sua famosa fórmula da felicidade. Em seguida passo à «A Biblioteca de Babel» de Borges. Abro e fecho com Umberto Eco, o intelectual mais livresco que conheço. Associei os textos porque têm mais do que um denominador comum.

«[...] Comecei a reflectir sobre qual será a função de uma biblioteca. No início, no tempo de Assurbanípal ou de Polícrates, talvez fosse uma função de recolha, para não deixar dispersos os rolos ou volumes. Mais tarde, creio que a sua função tenha sido de entesourar: eram valiosos, os rolos. Depois, na época beneditina, de transcrever: a biblioteca quase como uma zona de passagem, o livro chega, é transcrito e o original ou a cópia voltam a partir. Penso que em determinada época, talvez já entre Augusto e Constantino, a função de uma biblioteca seria também a de fazer com que as pessoas lessem...»
                                                                                                           Umberto Eco, A Biblioteca

«A maior maravilha de Alexandria era a sua biblioteca e seu correspondente museu (literalmente, uma instituição dedicada às especialidades das Nove Musas). Desta biblioteca lendária o máximo que sobrevive hoje em dia é uma cave húmida e esquecida do Serapeo, o anexo à biblioteca, primitivamente um templo que foi reconsagrado ao conhecimento. Umas poucas estantes bolorentas podem ser os seus únicos restos físicos. Contudo, este lugar foi na sua época o cérebro e a glória da maior cidade do planeta, o primeiro instituto de investigação da história do mundo. Os eruditos da biblioteca estudavam o Cosmos inteiro. [...] Havia na biblioteca uma comunidade de eruditos que investigavam a física, a literatura, a medicina, a astronomia, a geografia, a filosofia, as matemáticas, a biologia e a engenharia. A ciência e a erudição haviam chegado à sua idade adulta. O génio florescia naquelas salas. A Biblioteca de Alexandria é o lugar onde os homens reuniram pela primeira vez de modo sério e sistemático o conhecimento do mundo.»                                                                                                                                                                                         Carl Sagan, Cosmos

«A biblioteca nasceu segundo um desígnio que permaneceu obscuro para todos através dos séculos e que nenhum dos monges é chamado a conhecer. Só o bibliotecário recebeu o seu segredo do bibliotecário que o precedeu, e comunica-o, ainda em vida, ao bibliotecário ajudante, de modo que a morte não o surpreenda privando a comunidade daquele saber. E os lábios de ambos estão selados pelo segredo. Só o bibliotecário, além de saber, tem o direito de se mover no labirinto dos livros, só ele sabe onde encontrá-los e onde repô-los, só ele é responsável pela sua conservação. Os outros monges trabalham no scriptorium e podem conhecer o elenco dos volumes que a biblioteca encerra.
A sala, como disse, tinha sete paredes, mas só em quatro deles se abria, entre duas colunazinhas encaixadas na parede, uma abertura, uma passagem bastante ampla encimada por um arco de volta inteira. Ao longo das paredes fechadas encostavam-se enormes armários, carregados de livros dispostos com regularidade. Os armários tinham uma etiqueta numerada, assim como cada uma das prateleiras: claramente, os mesmos números que tínhamos visto no catálogo. No meio da sala uma mesa, também ela repleta de livros. Sobre todos os volumes um véu bastante fino de poeira, sinal de que os livros eram limpos com uma certa frequência.»
                                                                                                   Umberto Eco, O Nome da Rosa


«Jacinto empurrou uma porta, penetrámos numa nave cheia de majestade e sombra, onde reconheci a Biblioteca por tropeçar numa pilha monstruosa de livros novos. [...] Que majestoso armazém dos produtos do Raciocínio e da Imaginação! Ali jaziam mais de trinta mil volumes, e todos decerto essenciais a uma cultura humana. Logo à entrada notei, em ouro numa lombada verde, o nome de Adam Smith. Era pois a região dos Economistas. Avancei — e percorri, espantado, oito metros de Economia Política. Depois avistei os Filósofos e os seus comentadores, que revestiam toda uma parede, desde as escolas pré-socráticas até às escolas neopessimistas. Naquelas pranchas se acastelavam mais de dois mil sistemas — e que todos se contradiziam. Pelas encadernações logo se deduziam as doutrinas: Hobbes, em baixo, era pesado, de couro negro; Platão, em cima, resplandecia, numa pelica pura e alva. Para diante começavam as Histórias Universais.«Mas aí uma imensa pilha de livros brochados, cheirando a tinta nova e a documentos novos, subia contra a estante, como fresca terra de aluvião tapando uma riba secular. Contornei essa colina, mergulhei na secção das Ciências Naturais, peregrinando, num assombro crescente, da Orografia para a Paleontologia, e da Morfologia para a Cristalografia. Essa estante rematava junto de uma janela rasgada sobre os Campos Elísios. Apartei as cortinas de veludo — e por trás descobri outra portentosa rima de volumes, todos de História Religiosa, de Exegese Religiosa, que trepavam montanhosamente até aos últimos vidros, vedando, nas manhãs mais cândidas, o ar e a luz do Senhor.»
                                                                                         Eça de Queirós, A Cidade e as Serras

«O universo (a que outros chamam a Biblioteca) é constituído por um número indefinido, e talvez infinito, de galerias hexagonais com vastos poços de ventilação ao centro, cercados por varandas baixíssimas. De qualquer hexágono vêem-se os pisos superiores e inferiores, interminavelmente. A distribuição dos objectos pelas galerias é invariável. Vinte e cinco estantes, à razão de cinco por cada lado, cobrem todos os lados menos um; a sua altura, que é a mesma de cada piso, não ultrapassa muito a de uma biblioteca normal. O lado livre dá para um corredor estreito que conduz a outra galeria, idêntica à primeira e a todas. À direita e à esquerda do corredor há dois sanitários minúsculos. Um deles permite dormir em pé; o outro, satisfazer as necessidades fecais. Por aí passa a escada em espiral, que se afunda e se ergue a perder de vista. No corredor há um espelho, que duplica fielmente as aparências. [...] A cada parede de cada um dos hexágonos correspondem cinco estantes; cada estante contém trinta e dois livros de formato uniforme; cada livro tem quatrocentas e dez páginas; cada página, quarenta linhas; cada linha, quarenta letras de cor preta. Também há letras na lombada de cada livro; isso não significa, porém, que indiquem ou anunciem o que dirão as páginas. Sei que antigamente esta incoerência parecia misteriosa.
Afirmam os ímpios que o contra-senso é normal na Biblioteca, e que o racional (como acontece também com a humilde e simples coerência) é aí quase uma miraculosa excepção. Referem-se (bem sei) à “Biblioteca febril, cujos volumes fortuitos correm o risco incessante de se transformarem noutros, e onde todos eles afirmam, negam e confundem como uma divindade em delírio”. Estas palavras, que não só denunciam a desordem, mas também a ilustram, testemunham obviamente o péssimo gosto e a desesperada ignorância de quem as pronuncia. Na realidade, a Biblioteca inclui todas as estruturas verbais, todas as variações permitidas pelos vinte e cinco símbolos ortográficos, mas nem um só contra-senso absoluto.
[...] Falar é incorrer em tautologias. Esta epístola inútil e prolixa já existe num dos trinta volumes das cinco estantes de um dos inúmeros hexágonos — assim como a sua refutação. (Um número n de línguas possíveis usa o mesmo vocabulário; nalgumas delas o símbolo biblioteca admite a definição correcta de sistema perdurável e ubiquitário de galerias hexagonais, mas biblioteca significa nesse caso pão, pirâmide ou qualquer outra coisa, e outras coisas significam também as sete palavras que a definem. Tu, que me lês, estás seguro de entender a minha linguagem?) Amén!»
                                                                                               J. L. Borges, A Biblioteca de Babel

Gostaram? É o meu passeio preferido por este jardim das delícias a que chamamos de biblioteca. Em outros tempos era na biblioteca da faculdade que dava a primeira e a última aula aos meus alunos do primeiro e quarto ano. Sempre no labirinto do saber. Nascemos ignorantes e morremos um pouco menos ignorantes. Mas é difícil saciar ao longo da vida a fome e a sede do conhecimento, recusar a maçã que Eva, protótipo do humano, ofereceu furtivamente a Adão.

Deixando de lado os devaneios, centremo-nos na questão do conhecimento. Muitas pessoas vivem criando, adaptando, pedagogizando, transmitindo conhecimento. Mas a figura de que precisamos é o mestre ― figura tão antiga como a própria Humanidade. Como introduzi-lo no mundo virtual como recurso de primeira instância? Esta é a pergunta. Uma solução simples e esperada depende da entrada na Internet de profissionais cuja missão é a de orientar as nossas pesquisas. Uma espécie de gurus on-line. Curiosamente alguns já lá estão, mas como detectar a sua presença? Não esqueçamos que qualquer labirinto conduz ao Minotauro, mesmo se ele estiver ausente. A chamada gestão do conhecimento deve, antes de mais, sugerir estes caminhos. É o que irei tentar demonstrar na próxima intervenção.

 

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