Dan Caragea: A Confissão de Um Renegado

No mundo da Gestão Electrónica Documental a reputação é o nosso cartão de visita. Como todo a gente, nós também oferecemos soluções. Mas precisamos de mais tempo, mais esforço, mais paciência para convencer o cliente do que ele já sabia.

Fico radiante se me entende, e sobretudo se me concede alguns dos seus preciosos momentos, porque sei como anda ocupado e atarefado, para, e agora vem a palavra mágica!, lhe fazer uma demo. Uma demo não é um palavrão. Uma demo é um verdadeiro ritual de iniciação. Podíamos vê-la a sós, mas se puder juntar mais forças de decisão, ficar-lhe-ia eternamente grato. Eu nem sequer lhe peço, eu sei que o senhor, como perfeito anfitrião, vai tratar disso.

É bom que o ritual se dê numa sala apropriada. Aceito um cafezinho, e, se não se importa, começo a preparar o meu arsenal: portátil, fios, projector... Agora é agora! Noto que, por milagre, a assistência começa a entrar em retrocesso psicológico: os temíveis directores são de novo alunos tímidos, nas suas nostálgicas carteiras, em busca da luz do saber. Todos não! Há sempre pelo menos um que me vai fazer a vida negra, o tal advogado do diabo, um fulano que sabe tudo e por isso boceja e se aborrece. Se o irritar demasiado com a minha bazófia de entendido estou feito! É daí que irão chegar as perguntas difíceis, o torcer do nariz, o «sim, sim, isto já sabemos», os ataques, a punhalada fatal. Até o identificar, com voz ponderada e calma, sorrindo para captar quantas benevolências puder, digo duas, três banalidades, ignoro as mulheres, se naquela casa é o galo que canta, desprezo os homens, se por acaso estamos numa reunião matriarcal, dirigida por um qualquer D. Afonso Henriques de saias. (Neste caso particular é bom ignorar até as outras senhoras porque elas têm apenas o papel de encher a plateia.)

Tudo isto se passa em poucos minutos de sofrimento, antes de apagar a luz. Sim, uma demo que se preze necessita de escuridão (ia quase dizer de obscurantismo). Num ecrã ou simplesmente numa parede começam a desfilar imagens projectadas do verdadeiro software, se me permitirem mostrar o produto a funcionar, o que é altamente recomendável, e o ar enche-se de palavras ainda mais obscuras que o ambiente: «digitalização», «OCR», «indexação» e «pesquisa», palavras de absoluta necessidade e de ressonância douta. Se tiver algo a que chamamos «base de dados», ouvimos durante o ofício palavras como: «campos», «descritores», «SQL», «Oracle», «registos», «arquitectura», etc. Têm perguntas? Por favor, estamos de corpo e alma à vossa disposição. É importante não esquecerem que nós prestamos serviços completos. Não têm que se preocupar com nada, excepto com a assinatura do contrato. E, se Deus quiser, amanhã enviaremos a proposta.

Devo salientar que durante o ritual é altamente desaconselhável falar em dinheiro seja de que parte estamos. É literalmente um acto profanatório. As nossas soluções só têm preço porque também necessitamos de comer. Doutra forma, nenhuma empresa de gestão documental que se preze não se constituía a não ser como «empresa sem fins lucrativos». Porque nós, meus caros amigos, contribuímos para o crescimento do património digital, somos empresas culturais que não maltratam a língua portuguesa. De resto vestimos fatos como vocês, usamos gravatas como vocês e temos quase as mesmas marcas de carros como vocês. Não pertencemos a nenhuma seita política ou religiosa. Temos sim a nossa missão, mas somos soldados da paz e concórdia. Guardamos sigilosamente os vossos segredos, trabalhamos em equipas altamente qualificadas e formadas no estrangeiro, garantindo a qualidade dos nossos serviços. (Entenda-se esta garantia no sentido em que todos garantem os seus serviços.). A satisfação do cliente é eroticamente obsessiva para nós. Quando você sorri, nós sorrimos, quando você está preocupado, nós estamos preocupados, quando você deixa de gostar de nós, nós continuamos a gostar de você. Nunca o traímos, nunca lhe mentimos. Bem, isto é outra conversa! Na verdade, quase nunca lhe contamos a verdade, mentimos piedosamente apenas para não o preocupar, deixando-o tratar sossegadinho da sua vida. Terá que saber que o software é pouco estável, que entre o que viu no ecrã ritualístico e a realidade há distâncias intergalácticas?... Eu acho que não. Se oferecemos assistência porque há-de pensar que vai entrar em coma. Isto só acontece aos outros, mas você, meu fiel amigo, não pense que bacalhau é peixe. Para poder acreditar em mim vou contar-lhe todas as mentiras que os outros dizem de nós. Receba a minha história como a confissão pública de um renegado. Entenderá quantas falsidades se contam à boca pequena sobre o produto que acabou de comprar. Nem sequer deve dizer-me o nome dele ou do fornecedor; deixe-me adivinhar. Conceda-me este favor, e irá saber o que ninguém teve a coragem ou a honestidade de lhe contar. Garanto-lhe que não se arrependerá.

 

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